Arrisco-me a dizer que não há uma única empresa à face da Terra que não tenha aquele colega. Sabem quem é? É a criatura que parece ter dormido debaixo da secretária, que faz tudo pela empresa, que veste a camisola até ao pescoço (já a sufocar) e que acha que a empresa onde trabalha é o centro absoluto do universo.
Até aqui, tudo bem, cada um faz da sua vida o que quiser. O problema é quando essa pessoa decide interagir connosco diariamente e nos despeja em cima uma filosofia de vida que bate no absurdo.
Então não é que a criatura vem-me dizer, com a maior das naturalidades, que nós temos de fazer um esforço monumental pela empresa porque "é ela que nos paga o salário"?!
Calma, respira... respira...
Então quer dizer que a empresa paga o salário em troca de quê? De caridade?! Temos um contrato de trabalho! Existe uma coisa chamada horário, outra coisa chamada leis... Onde é que está escrito no Código do Trabalho que um cidadão deve oferecer 4h a 6h diárias de borla porque as empresas "precisam de nós"?!
Pior do que isto só mesmo o argumento absurdo: "Se todos não fizerem um esforço extra, a empresa pode chegar a um ponto de ter de despedir pessoas!"
Portanto, para salvar postos de trabalho, a brilhante solução coletiva é... trabalhar o dobro a preço de saldo (ou de graça)?!
Mas o melhor (ou pior) veio a seguir. O dito colega começou a destilar veneno sobre os outros colegas porque... pasmem-se: quando chega a hora de saída, vão embora!
Segundo a mente brilhante dele, é um sacrilégio haver pessoas que, quando surge um problema ao cair do pano, simplesmente fecham o computador e vão embora...
Ora vamos lá ver uma coisa: as pessoas têm filhos, têm famílias, têm consultas, aulas de zumba, ou podem simplesmente querer ir para casa, sentar no sofá em frente à televisão a ver qualquer coisa enquanto comem pipocas sem fazer absolutamente mais nada!
E por quê? Porque têm o pleno direito de o fazer! As horas extra não são pagas ( e para as conseguirmos converter num dia de folga é preciso quase rezar a 30 Santos diferentes), e ninguém é obrigado a viver para dar lucro a uma empresa que amanhã vos substitui num piscar de olhos. Como se costuma dizer: "somos números" e esses foram feitos para serem somados, mas também subtraídos...
Trabalhar 6 horas a fio a mais por dia, mais os fins de semana não é dedicação... É um comportamento doentio!
E o pior é que esta gente não percebe que está a dar tiros nos próprios pés e nos de todas as outras pessoas. Se a empresa tem um "funcionário exemplar", que faz o trabalho de dois ou três funcionários de borla, porque raio é que a gestão irá contratar mais gente ou pagar remunerações justas? Para quê compensar os outros se há um voluntário a trabalhar em regime de "escravatura moderna"?
Quando alguém "normal" tenta pedir uma compensação justa, leva um redondo "não" porque existem outras pessoas que já normalizaram o absurdo!
A continuar assim, eu não sei onde isto irá parar...
Imagem de capa gerada por IA.